quinta-feira, 7 de julho de 2011

Rato na Sacristia


Texto públicado em http://tesourobibliografico.wordpress.com/
Sobre Márcia Rodrigues

Bibliotecária, interessada em bibliotecas, acervos históricos/especiais/raros, história do livro, futuro do livro, inovações tecnológicas.

O Códice Calixtino, ou Codex Calixtinus, um livro do século XII de valor incalculável, desapareceu da Catedral de Santiago de Compostela, em Espanha. O manuscrito estava guardado numa caixa forte no arquivo da catedral e o seu desaparecimento apenas foi reportado esta terça-feira. Este crime já é considerado um dos mais graves cometidos contra o património histórico e artístico.

A polícia já está a investigar o caso e segundo informou Miguel Cortizo, delegado do governo na Galiza, não existem sinais de arrombamento da caixa forte onde se encontrava o valioso manuscrito, o mais antigo e completo dos livros da catedral, considerado a jóia da identidade galega. O “El País” avança que foram encontradas as chaves da caixa forte ainda colocadas quando se descobriu o desaparecimento do Códice, o que torna o caso ainda mais misterioso, tendo em conta que o acesso ao arquivo da catedral é restrito. Apenas cinco ou seis pessoas podem circular naquele espaço e apenas três, emtre elas o cónego José María Díaz tem acesso livre ao arquivo. Já foram todos interrogadas pelas autoridades e nenhum foi considerada suspeito.

Aquele que é definido como o primeiro e mais célebre guia para peregrinos foi mostrado pela última vez há cerca de dois meses a elementos do Ministério da Cultura. Quando na terça-feira os responsáveis do arquivo não encontraram o Códice Calixtino, e como o cofre onde estava não apresentava sinais de arrombamento, não foi colocada de imediato a hipótese de roubo. Depois de o livro não ter sido localizado nem ter sido encontrada qualquer pista sobre o paradeiro, a polícia foi alertada.

“O melhor que pode acontecer é que o Códice esteja em mãos de alguém que conheça o seu valor incalculável porque assim temos a certeza que não o maltratará”, explicaram as autoridades ao “El País”, acrescentando que todos os meios estão a ser disponibilizados, estando também a Brigada Central do Património Histórico a ajudar à investigação.

Sem seguro

O cónego José María Díaz, revelou ao "El País" que o livro valioso, já apontado por muitos especialistas como o mais importante de Espanha, carece de um seguro próprio. O pároco explicou que existe um seguro geral para a Catedral mas não se sabe ainda se cobrirá o exemplar roubado. Até hoje, o Códice Calixtino apenas tinha saído do monumento, mas nunca de Santiago da Compostela, em duas ocasiões e apenas por poucos dias, para duas exposições, a última em 1993. Depois disto, a Catedral optou por expôr uma reprodução da obra, protegendo a original na caixa forte. José María Díaz contou que há uns anos o Códice foi solicitado para uma exposição fora da Galiza mas não viajou porque o seu seguro ascendia os mil milhões de pesetas.

Especialistas citados pelo “El Correo Gallego” consideram que a obra já se encontra fora de Espanha, podendo tratar-se de um roubo realizado por um grupo contratado por algum coleccionador ou traficante de objectos desde género. Neste sentido, Miguel Cortizo contou que já foram activados os protocolos europeus, de forma a controlar os mercados onde este tipo de obras podem ser comercializadas.

Carlos Villanueva, catedrático da Universidade de Santiago de Compostela e estudioso destas obras, afirmou que o livro tem um valor “imenso”, difícil de estabelecer caso a obra fosse leiloada. O académico considera que o livro é possivelmente o original (ou pelo menos o melhor dos exemplares) do Codex Calixtinus, o primeiro guia do Caminho de Santiago, que foi encomendado pelo Papa Calixto II ao sacerdote francês Aymeric Picaud.

O Códice Calixtino descreve pela primeira vez os detalhes de várias das rotas do Caminho, com informação sobre alojamento, zonas a visitar e património e objectos de arte que podem ser conhecidos. Um relato que, nove séculos depois, continua nos dias de hoje a ser citado e ainda serve de referência para alguns dos locais percorridos pelos peregrinos.

Elaborado entre 1125 e 1130 - depois publicado em 1160 - o texto ficou maior do que o inicialmente previsto, acabando por contar com participações dos principais escritores, teólogos, fabulistas, músicos e artistas da época, tendo que ser dividido em cinco livros e vários apêndices, entretanto reunidos, já no século passado, num único volume.

A ministra da Cultura, Ángeles González-Sinde, já expressou a sua confiança nas autoridades e acredita que a obra vai ser recuperada. “Felizmente, a Brigada do Património Nacional tem dado resultados muito bons em casos similares”, disse, lembrando o caso dos documentos roubados da Biblioteca Nacional e de outras bibliotecas e que foram depois recuperados.

Fonte: Público.

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