Encadernação Artística

domingo, 25 de dezembro de 2011

Chove. É dia de Natal





Chove. É dia de Natal !

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.
Fernando Pessoa

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Uma catástrofe no Egito, uma catástrofe para humanidade

Imagem do lemond
Neste domingo, 18 de dezembro  o prédio onde abrigava o Instituto do Egito continuava a  queimar. Todavia vários manifestantes entraram no prédio, na tentativa de salvar o que restou da coleção de Manuscritos. O incêndio começou no dia 17, de dezembro. Segundo as autoridades o fogo foi provocado pelos manifestantes que lançaram sobre o prédio coquetel molotov, porém esta versão é contestada.

 O Ministro da Cultura Shaker Abdel Hamid descreveu o desastre "catástrofe para a ciência", e anunciou a "formação de um comitê de especialistas em restauração de livros e manuscritos, quando as condições de segurança o permitirem.""O prédio continha manuscritos muito importantes e livros raros que é difícil encontrar o equivalente no mundo," disse ele, referindo-se aos esforços que envolvam "jovens da Revolução, o Conselho Supremo de cultura e restauradores para salvar o que for possível. ""É um grande desastre para o Egito", respondeu Raouf El Reedy, ex-embaixador egípcio em Washington e membro do Instituto. "Este instituto faz parte da história comum entre a França e o Egito", disse o arqueólogo Christian Leblanc, membro do Instituto.  

Enquanto eles  decidem a quem  pertence a autoria do incêndio, os documentos perdidos estão e nada mais se pode fazer.
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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Finge que Defende a Honra da Cidade e Aponto os Vícios de Seus Moradores



Gregório de Matos Guerra - O boca do Inferno

Finge que Defende a Honra da Cidade e Aponto os Vícios de Seus Moradores

Uma cidade tão nobre, uma gente tão honrada veja-se um dia louvada desde o mais rico ao mais pobre: cada pessoa o seu cobre, mas se o diabo me atiça, que indo a fazer-lhe justiça algum saia a justiçar, não me poderão negar que por direito, e por Lei esta é a justiça, que manda El-Rei O Fidalgo de solar se dá por envergonhado de um tostão pedir prestado para o ventre sustentar: diz que antes o quer furtar por manter a negra honra, que passar pela desonra de que lhe neguem talvez; mas se o virdes nas galés com honras de Vice-Rei, esta é a justiça, que manda El-Rei A Donzela embiocada mal trajada, e mal comida, antes quer na sua vida ter saia, que ser honrada:

à pública amancebada

por manter a negra honrinha, e se lho sabe a vizinha e lho ouve a clerezia, dão com ela na enxovia e paga a pena da lei: esta é a justiça, que manda El-Rei

A Casada com adorno, e o Marido mal vestido, crede que este tal Marido penteia monho de corno: se disser pelo contorno que se sofre a Frei Tomás por manter a honra o faz, esperai pela pancada, que com carocha pintada de Angola há de ser Visrei: esta é a justiça, que manda El-Rei. Os Letrados Peralvilhos citando o mesmo Doutor a fazer de réu o Autor comem de ambos os carrinhos: se se diz pelos corrilhos sua prevaricação, a desculpa, que lhe dão, é a honra de seus parentes e entonces os requerentes fogem desta infame grei: esta é a justiça, que manda El-Rei. O Clérigo julgador, que as causas julga sem pejo, não reparando que eu vejo que erra a Lei, e erra o Doutor: quando vêem de Monsenhor a sentença revogada por saber que foi comprada pelo jimbo, ou pelo abraço, responde o Juiz madraço, minha honra é minha Lei: esta é a justiça, que manda El-Rei. O Mercador avarento, quando a sua compra estende, no que compra, e no que vende, tira duzentos por cento: não é ele tão jumento, que não saiba que em Lisboa se lhe há de dar na gamboa; mas comido já o dinheiro diz que a honra está primeiro, e que honrado a toda Lei: esta é justiça, que manda El-Rei. A Viúva autorizada, que não possui um vintém, porque o Marido de bem deixou a casa empenhada: ali vai a fradalhada, qual formiga em correição, dizendo que à casa vão manter a honra da casa; se a virdes arder em brasa, que ardeu a honra entendei: esta é a justiça, que manda El-Rei. O Adônis da manhã, o Cupido em todo dia, que anda correndo a coxia com recadinhos da Irmã: e se lhe cortam a lã, diz que anda naquele andar por a honra conservar bem tratado, e bem vestido, eu o verei tão despido, que até as costas lhe verei: esta é a justiça, que manda El-Rei. Se virdes um Dom Abade sobre o púlpito cioso, não lhe chameis religioso, chamai-lhe embora de frade: e se o tal paternidade rouba as rendas do convento para acudir ao sustento da puta, como da peita, com que livra da suspeita do Geral, do Viso-Rei: esta é a justiça, que manda El-Rei.

In Memoriam