Encadernação Artística

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A Barca da Morte



A barca da morte


(D.H. Lawrence - Tradução de Rui Rosado)


 

Agora é o Outono, o cair dos frutos

e a longa viagem para o esquecimento.

 

As maçãs que caem como grandes gotas de orvalho

Conseguem ferir uma saída de si próprias.

 

É tempo de ir, do adeus

ao próprio eu, de encontrar uma saída

do eu caído.

 

II 

 

Já construiste a tua barca da morte, a tua?.

Constrói a tua barca da morte, vais precisar dela.

 

Não tarda a geada impiedosa, e cairão as maçãs

pesadas, quase retumbantes, na terra ressequida.

 

E, no ar, a morte como um cheiro de cinzas!

Não a sentes?

 

E no corpo ferido, a alma assustada

fica encolhida, contraíndo-se do frio

que sopra sobre ela pelos orifícios.

 

III 

 

E consegue um homem a sua quietude

com um punhal nu?

 

Com adagas, punhais, balas, um homem consegue

uma fenda ou ferida para sair a vida;

mas é isso a quietude, diz-me, a quietude?

 

Claro que não! como pode um crime, mesmo contra si

criar quietude?

 

IV 

 

Falemos de quietudes que conhecemos,

das que podemos conhecer, de profundas e ternas quietudes

num coração forte e em paz!

 

Como tornar, isto em quietude nossa?

 


 

Constrói, pois, a barca da morte, que vais partir

na mais longa viagem, para o esquecimento.

 

E morre a morte, a longa e dolorida morte

que fica entre o velho e o novo eu.

 

Caíram-nos já, feridos, rasgados, os corpos,

esvaem-se-nos já as almas pela saída

dessa cruel ferida.

 

O oceano sombrio, infindável, do fim

espraia-se já pelas nossas rebentadas chagas,

abate-se já sobre nós o dilúvio.

 

Constrói a tua barca da morte, a tua pequena arca

abastece-a com comida biscoitos e vinho,

para o obscuro voo no esquecimento.

 

VI 

 

Pouco a pouco o corpo morre, e a alma tímida

vê o suporte levado no erguer do negro dilúvio.

 

Morrendo, estamos morrendo, estamos todos morrendo

e nada deterá o dilúvio de morte que cresce em nós

e não tarda a erguer-se sobre o mundo, sobre o mundo exterior.

 

Morrendo, estamos morrendo, pouco a pouco morrendo

e abandona-nos o ânimo,

e abriga-se a alma nua na chuva negra sobre o dilúvio

abrigando-se nos últimos ramos da árvore da nossa vida.

 

VII 

 

Morrendo, estamos morrendo, agora só nos resta

aceitar a morte, e construir a barca

da morte que nos leve a alma na mais longa viagem.

 

Uma pequena barca, com remos e comida

e pequenos pratos, e todo o apetrechamento

pronto e necessário à alma de partida.

 

Agora, lança à água a pequena barca, agora, que o corpo morre

e a vida parte, lança a alma frágil

na frágil barca da coragem, na arca da fé,

com os mantimentos, as pequenas caçarolas

e as mudas de roupa;

no negro deserto do dilúvio

nas águas do fim

no mar da morte, onde navegamos ainda,

às escuras, porque não temos leme nem existe porto.

 

Não há porto, nenhum sítio para onde ir

apenas o negrume que se aprofunda e escurece mais,

mais negro sobre o dilúvio silencioso e inagitado

escuridão após escuridão, para cima e para baixo

e pelos lados absoluta escuridão, já não pode haver direção.

E a pequena barca está lá, e contudo partiu.

Não pode ser vista, porque nada o permite.

Desapareceu! partiu! e contudo está

em algum lado.

Em lado algum!

 

VIII 

 

E tudo partiu, o corpo partiu

submerso, desaparecido, inteiramente desaparecido.

A escuridão de cima é tão densa como a de baixo,

por entre elas a pequena barca

partiu

desapareceu.

 

É o fim, é o esquecimento.

 

IX 

 

E, contudo, da eternidade separa-se

um filamento sobre o negrume,

um filamento horizontal

que se eleva palidamente sobre o escuro.

 

Será ilusão ou eleva-se essa palidez

um pouco mais alto?

Mas espera, espera, porque há a madrugada,

a madrugada cruel do regresso à vida

após o esquecimento.

 

Espera, espera, a pequena barca

à deriva, debaixo do cinzento mortal das cinzas

duma madrugada de dilúvio.

 

Espera, espera! mesmo assim uma réstea de amarelo

e, por estranho, alma cansada e fria, uma réstea de rosa.

 

Uma réstea de rosa, e tudo isto recomeça.

 


 

Desde o dilúvio, e o corpo, como uma concha polida

emerge extraordinário e belo.

E a pequena barca torna a casa, deslizando, trêmula,

sobre as águas do dilúvio róseo,

e a frágil alma desembarca, volta a casa

enchendo de paz o coração.

 

O coração renovado embala-se na paz,

mesmo na do próprio esquecimento.

 

Constrói a tua barca da morte, a tua!

vais precisar dela.

Espera-te a viagem do esquecimento.

fonte - 
http://mundodek.blogspot.com

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